quarta-feira, 7 de março de 2012

Pode me ligar!



            Há uns meses atrás tive uma conversa bem bacana com duas amigas de longa data. O papo começou quando falamos sobre o tempo de nossa amizade, de como havíamos nos aproximado, das nossas diferenças e da surpresa que causamos nos ex-colegas de escola ao perceberem que não sucumbimos ao natural distanciamento pós-adolescência e nos vemos e nos falamos quase que semanalmente.
Lembro-me que neste dia falamos de nossos atuais projetos, relembramos antigos sonhos, falamos de nós, de como estávamos e de tudo o que passamos juntos, das mudanças, das viagens, bebedeiras, desilusões, erros, acertos e das nossas realizações até ali. Era uma daquelas conversas que só amigos que compartilharam alegrias e tristezas, passaram juntos e se apoiaram durante as tempestades da vida podem ter.
O assunto inicial foi sobre a nossa chegada aos 30 anos, eu fui o primeiro a virar um trintão, e quem me conhece de perto, deve imaginar como eu pirei com a idéia de não ter mais vinte e poucos anos.
O papo se estendeu e passamos a falar sobre a nossa futura velhice, de como seria, de como gostaríamos que fosse. Imaginando como seríamos quando nossos sentidos e nossa memória começassem a fraquejar, e nossa autonomia se perder.
E foi nessa hora que parei para refletir sobre a minha futura velhice e sobre homossexualidade na terceira idade. Foi bem estranho, já que quando se é jovem pouco se pensa na velhice, o máximo que se chega a cogitar é ter alguns netos pra contar sobre a vida que ainda vamos viver e que ainda nem sabemos como viveremos. Até então, nunca tinha parado para pensar na minha velhice, e muito menos na minha velhice gay! Na verdade, só fui me dar conta de que os gays envelheciam quando vi numa passeata um banner que dizia “Gays Idosos são muito gostosos” ou algo parecido.
Aí, de repente, num papo informal entre amigos, numa mesa de boteco, entre uma cerveja e outra, me dou conta de eu vou ficar velho, aliás, que meus anos já estão passando e eu nem tinha pensado nisso. Caraca!
Não pensava na velhice mesmo! Todo dia sou bombardeado por propagandas pregando a juventude eterna, vivo num mundo que cultua a juventude, o parecer jovem não importa quantas cirurgias plásticas, aplicações de botox e enzimas, peelings, horas de academia, potinhos de Renew e comprimidos de Viagra eu gaste nisso. Mantenha-se e pareça jovem!
E é aí que se centram algumas das minhas preocupações, o fato de querer parecer sempre jovem, me leva quase que automaticamente a negar a existência da velhice e de todo o processo de envelhecimento.
A simples associação de homossexualidade e terceira idade soam como a condenação a uma velhice triste e solitária.
Algumas preocupações me surgiram, por exemplo, onde é que eu vou descolar uns netos pra contar minhas histórias? Se eu ficar acamado ou perder a minha autonomia, quem iria cuidar de mim? E se eu não encontrasse um companheiro para dividir a vida? Será que eu me tornaria um peso para minha família? Seria confinado em uma instituição?
Além dessas questões relacionadas à saúde e à família, pensei em algumas questões existenciais relacionadas ao final de minha vida, ou melhor, relacionados à minha morte.
Lidar com finais nunca foi o meu forte, então pensar no meu fim é algo que me é, no mínimo, incômodo.
Tenho pavor da morte e mais pavor ainda de morrer sozinho como morreu meu pai. Ou seja, sempre me pego perguntando quem estará ao meu redor quando o meu dia chegar. Sabe aquela imagem do velhinho na cama, rodeado de filhos, netos e bisnetos que parte em paz? Pois é, existe a possibilidade dessa coisa não rolar comigo.
Li uma vez em um livro do Yalom uma passagem bem interessante sobre a morte: Um paciente de terapia de grupo falava sobre seu temor da morte quando outro paciente se vira e diz “Você não é o único que tem esses medos, talvez fosse bom descobrir que todos estão no mesmo barco”, ao que o primeiro responde “Não, você está sozinho em seu próprio barco. É a parte mais terrível sobre morrer; você precisa fazer isso sozinho.” E outro membro do grupo diz “Mesmo assim, mesmo que você esteja sozinho em seu próprio barco é sempre confortador ver as luzes dos outros barcos balançando por perto”. Obviamente que ruminei sobre quais (ou quem) seriam estes barcos que estariam por perto quando eu partisse. Não faço idéia, mas tenho uma certeza, vou precisar muito de alguns barquinhos por perto!
Bom, medroso como sou, afastei esses pensamentos e voltei meu foco para a vida que eu ainda tenho.
Pensei em como seria minha vida social de gay da terceira idade, percebi que o pouco que eu sabia sobre homossexualidade na velhice era um ajuntamento de idéias pré-concebidas, algo como “bicha velha e micheteira”, marca que é imposta aos homossexuais idosos, muitos dos quais nem aos sessenta anos chegaram ainda, só não tem mais vinte e poucos anos.
Onde os gays idosos vivem? Como vivem? Em que condições vivem? Como lidam com as famílias? São felizes? Relacionam-se afetiva e sexualmente? Que direitos tem? Há políticas específicas? Há instituições/comunidades voltadas para este público? Quem cuida?
Só aí tem assunto para umas dez edições do Globo Repórter.
Parei e vi que pouco se pensa na velhice gay, nos debates do movimento LGBT que participei até hoje vi um ou dois ativistas levantando o assunto. É assim mesmo, o debate sobre o assunto não acontece. Políticas Públicas então... Nem preciso dizer nada, não?
 Assim como na sociedade em geral, que representa o idoso como descartável ou peso social,  o nosso meio reflete e reproduz essa tendência, adicionando algumas características próprias da população LGBT, como a divisão em subgrupos, que amplificam a discriminação e estigmatizam ainda mais as idosas LGBTs.
Um vacilo gigantesco, já que lutar contra a discriminação e conquistar políticas públicas que melhorem a qualidade de vida da população, tende a influir diretamente no aumento expectativa de vida, ou seja, a tendência é vivermos por mais tempo. Logo, pensar na velhice é pensar em projeto de vida, e pensar no futuro. Então é fundamental situar a velhice e o envelhecimento no centro de nossos debates e formular políticas para este período da vida.
Meses depois da conversa que contei no início deste texto, quando as preocupações já haviam diminuído, uma dessas amigas me ligou inesperadamente e disse: “Oi, na sua velhice sempre que você se sentir sozinho, pode me ligar!” e desligou o telefone.
Pois é, quem tem amigos, já dizia o poeta, desconhece a solidão!




PS: Por gentileza assinem petição contra a PEC 99 que quer dar poderes a instituições religiosas cristãs de propor ações diretas de constitucionalidade e inconstitucionalidade ao STF e defende a laicidade do Estado: CLIQUE AQUI 

4 comentários:

  1. Excelente texto (como sempre). Eu também já me peguei pensando em como vai ser minha velhice, eu quero adotar um (ou mais) filho(s), e espero que um dia eles me deem netos rsrs. Sabe, acho que vou ser aquele vô brincalhão, que fica fazendo gostosuras pras crianças, basicamente uma nona italiana de calças.

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  2. Ótimo texto, mas só lembrando que os asilos estão cheios de velhinhos heterossexuais abandonados, apesar de terem filhos adultos e netos adolescentes. Ter filhos ou netos não é garantia de morrer cercado de carinho. Pelo contrário, em muitos casos, os futuros herdeiros se apossam do que seria herança, antes mesmo que o idoso vire defunto e agem como se ele defunto já fosse.

    Agora, uma coisa é certa: que a velhice é um desafio, isso é. E que a morte também pode ser assustadora, isso pode. E não me refiro ao pós-morte, pois para mim a morte é ponto final e não vírgula. Refiro-me aos momentos que podem doer, e doer muito, antes da parada definitiva do cérebro. Porém, mesmo esses momentos, difíceis como possam vir a ser, não durarão para sempre. A dor também acaba.

    O que podemos fazer, então? A única coisa que podemos fazer é viver tudo o que há para viver, procurando garantir algum dinheiro e segurança para o futuro, e torcer para que o cérebro funcione suficientemente bem para administrar tudo isso a nosso favor. Se é arriscado? Sim; muitíssimo. Mas, viver é isso: alegria e tristeza, saúde e doença, juventude e velhice, início e fim. O que realmente importa é o que fica no meio, entre o começo e o final.

    Parabéns pela reflexão. Só acrescento isso: Os heterossexuais não estão isentos de nada disso. Existem ainda alguns que terão a tristeza de sofrer na velhice depois de enterrar os próprios filhos ainda jovens, como vemos todos os dias no noticiário. Essa tristeza, quem não tem filho não vai precisar amargar.

    Não há garantias. Simples assim.

    Abraço forte, querido.
    Sergio Viula

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  3. Ai Flávio... eu tenho a expectativa de morrer até os 30... nao quero ficar velho... na verdade tenho medo de envelhecer e nao conseguir mais ser e fazer as mesmas coisas...morrer nao é problema... mas definitivamente.. envelhecer... issso me incomoda e muito, pois realmente nao me imagino em um asilo... muito menos querendo que alguém cuide de mim...nao gosto de sentir que sou um peso.... aiaiai... esse texto me deixou pensativo.... e se nao morrer até os 30???
    O.o

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  4. Ai Flávio... eu tenho a expectativa de morrer até os 30... nao quero ficar velho... na verdade tenho medo de envelhecer e nao conseguir mais ser e fazer as mesmas coisas...morrer nao é problema... mas definitivamente.. envelhecer... issso me incomoda e muito, pois realmente nao me imagino em um asilo... muito menos querendo que alguém cuide de mim...nao gosto de sentir que sou um peso.... aiaiai... esse texto me deixou pensativo.... e se nao morrer até os 30???
    O.o

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