sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Mãe, eu sou gay!




          Há um tempo atrás perguntei à minha mãe se ela queria ter um filho gay. Perguntinha bem sacana, ela já tem um filho gay. Foi de maldade mesmo.
Primeiro ela me olhou desconfiada, como se perguntasse Onde esse moleque quer chegar? Depois ela enrolou, disse pra eu parar de bobeira, que estava ocupada, ficou resmungando, fez uns sons estranhos (algo parecido com errrr... hããã... romha... jfgjwh... gdughd...) e não me respondeu. Como eu insisti no assunto, ela me disse que isso não importa mais, que me ama do jeito que eu sou, que tem muito orgulho de mim, e que eu sou o filho que ela queria!
Cena de Brothers & Sisters - Nora e Kevin
            Amei a resposta, óbvio, mas fiquei pensando no “isso não importa mais” que ouvi dela e relembrando dos momentos em que minha homossexualidade importou.
Minha mãe é uma mulher conservadora, tem muitos valores diferentes dos meus. Teve uma infância dura, começou a trabalhar ainda criança, estudou pouco, casou-se aos 16 anos por ter engravidado. Foi educada em uma família de valores morais rígidos, onde homens e mulheres tinham papéis demarcados, e sair deles era transgressão das grandes.
Como toda família tradicional, a minha tem lá os seus tabus, seus segredos. Sabe aquelas histórias que todo mundo sabe, mas ninguém toca no assunto? Então, infidelidade, sexo antes do casamento, aborto e homossexualidade são alguns exemplos desses tabus. Só se fala nesses assuntos se for para condenar, e reafirmar que em nossa família essas imoralidades não são toleradas.
Foi nesse meio que eu cresci. E foi nesse ambiente familiar que um dia contei ao meu irmão que sou homossexual. Ele, para minha surpresa, que me apoiou de cara! Depois contei para minha mãe, e aí a notícia se espalhou. Parte da família quis colocar o assunto no rol dos temas proibidos, alguns deram uma afastada e passaram a me evitar.
Minha mãe não me condenou, ela simplesmente silenciou sobre o assunto. Ela evitou o assunto o quanto pôde, e com o silêncio a gente acabou se distanciando um do outro. O fato é que minha mãe, como muitas mães de LGBTs por aí, nunca quis ter um filho gay. E eu não a condeno por isso! Ela não quis, eu não escolhi ser, e ambos tivemos que aprender com a situação.
Cena de Orações para Bobby
Minha mãe nunca me censurou abertamente, nunca me chamou de abominação, coisa do demo, monstro, pervertido, ou qualquer outro adjetivo parecido, em tese ela me aceitava. De repente, ela passou a reclamar quando eu passava a noite fora, a se incomodar com algumas amizades que eu tinha, com o meu distanciamento e ruptura com as religiões. Às vezes me perguntava indiretamente se era isso mesmo que eu queria.
Várias vezes percebi em suas falas um monte de discursos carregados de preconceito contra homossexuais, termos como bichinha, boiola, viadinho, entre outros. Aquilo me irritava demais, e uma vez disse a ela que assim como ela falava dos gays vizinhos e de alguns dos meus amigos, outras pessoas poderiam naquele momento estar falando a mesma coisa de mim. Isso a perturbou.
Eu podia deixar as coisas como estavam, deixá-la criticar quem bem entendesse, mas não achava justo, optei por conversar. Resolvi abrir espaço para o diálogo e finalmente começamos a falar sobre o assunto, sem rodeios.
Uma das primeiras coisas que ela me disse foi que nunca desconfiou de minha orientação sexual, que não sabia que tinha um filho gay, nunca tinha parado para pensar sobre como é ser mãe de um homossexual e que não sabia como lidar com tudo isso. Me disse que umas das coisas mais importantes que fiz foi ter tido a coragem contar a ela.
Cena de Will e Grace - George e seu filho gay Will
Tivemos inúmeras conversas, e nelas fomos revendo nossos valores. Eu estava em um momento que precisava muito que minha mãe me compreendesse, que me conhecesse e participasse da minha vida. E foi ficando claro de que ela precisava da mesma compreensão. O filho que ela idealizou não existia mais, e isso não deve ter sido fácil para ela.
Falamos sobre os nossos medos, ela me disse que tinha medo de que eu sofresse com preconceitos, que seria doloroso para ela se soubesse que eu fui discriminado ou agredido. Disse que não precisaria sair de casa para ser discriminado, o silêncio e a indiferença com que ela estava me tratando era um exemplo de preconceito, e machucava mais, pois vinha dela.
Ela me disse que sonhou em me ver casado, dando netos, construindo uma família. Que queria me ver como um homem honesto e trabalhador.  Disse a ela que casar e ter filhos ou não, independia da minha orientação, e que quanto a ser honesto e trabalhador já podia se dar por satisfeita, tinha feito o seu trabalho direitinho. Enfim, com o tempo passamos por inúmeros temas que povoavam o imaginário dela e do restante da família.
Foi um período bem interessante, de nos re-conhecermos, de eu perceber o amor incondicional de minha mãe, e aprender a recebê-lo, e de minha mãe entender que mesmo que eu fosse heterossexual, jamais seria o filho que ela idealizava, foi um tempo para ela perceber que pouca coisa mudou e que ela, como mãe, não falhou comigo.
Essas conversas, essa troca de impressões e sentimentos nos reaproximou, voltamos a ser muito ligados, mas de uma forma mais sincera. Ela teve de me respeitar pelo que sou e eu tive que respeitar o tempo dela, levou um bom tempo, e às vezes ainda voltamos ao tema, ampliamos as discussões, revisitamos nossos sentimentos.
Eu e minha mãe
Hoje, minha mãe é bem aberta, foi a primeira a acolher uma tia que aos 49 anos resolveu se assumir lésbica. Cuida dos meus amigos que estão em processo de saída do armário, fica horrorizada quando conto de algum amigo que teve que sair de casa por não ser aceito, se indigna com os inúmeros casos de homofobia, e se diverte com as milhares de bobagens que eu confidencio a ela.
Enfrentou as discussões dentro de casa, cresceu como pessoa, deu novos sentidos aos seus próprios valores e redefiniu os valores da família, acredita que é possível conversar sobre tudo e que só não se dá jeito na morte. Não virou uma militante do PFLAG, não entende muito as diferentes terminologias que o meio LGBT utiliza, mas sabe que as pessoas precisam ser aceitas e amadas como são! E nisso ela manda muito bem!
Vive dizendo que só foi possível crescermos e ampliarmos nossos horizontes, porque conversamos, falamos de nós mesmos, estivemos abertos um para o outro, nos compreendemos e nos respeitamos; E que pouco importa o que eu ou meus irmãos somos, ela só sabe que somos filhos dela, nos ama, e é feliz por nos ter.
E eu sou muito feliz por ser filho dela, mesmo sabendo que ela não sonhou em ter um filho gay, mas tendo a consciência de que ela sonhou ser minha mãe e é feliz em me ter como filho, independente do que eu seja!





PS: Por gentileza assinem petição contra a PEC 99 que quer dar poderes a instituições religiosas cristãs de propor ações diretas de constitucionalidade e inconstitucionalidade ao STF e defende a laicidade do Estado: CLIQUE AQUI 


12 comentários:

  1. Flávio, muito bom esse texto. É possível tudo quando existe amor. Ainda mais amor materno. Beijosss!

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    1. Oi Michela,

      Obrigado pelas palavras! Acredito muito no amor da minha mãe por mim, me faz bem é claro.

      Mas nem todas as mães (e famílias) são com a minha, sei de muita gente, inclusive tenho amigos em que os familiares não são tão acolhedores... me resta ser amigo e oferecer apoio a eles, e de vez em quando emprestar minha mãe pra fazer a maternagem!

      Beijo, e volte sempre aqui!

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  2. Parabéns pelo texto. Claro, sincero e compreensivo, sobretudo com o outro.

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    1. João,

      Que honra te receber por aqui! Acompanho sua história, é apaixonante e pretendo escrever sobre ela logo, logo! (assim que eu comprar o livro!!!)

      Obrigado pela visita e espero te ver mais vezes por aqui!

      Um abraço,

      Flávio

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  3. eu me emocionei imensamente porque tenho uma história bastante parecida com a sua... e ainda mais porque minha mãe já está aqui em vida... mas me lembro todos os dias de ouví-la dizer: "não há ninguém no mundo que o ame mais do que eu."

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    1. Olá Leandro,

      Obrigado pela visita e pelas palavras! É sempre bom saber que nossas histórias parecem com a de alguém, nos faz sentir que não estamos sozinhos no mundo né!

      Vamos sempre ter a sorte de poder contar com o amor incondicional de nossas mães, com a aceitação, mesmo quando elas não estão mais aqui!

      Espero te ver mais vezes por aqui, um abraço!

      Flávio

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  4. Simplesmente adorei, foi muito bom ler isso, em vários pontos percebi que a minha história é parecida com essa. Minha mãe me aceitou muito bem quando contei pra ela.

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    1. Obrigado Mário!

      Vi que você comentou em outros posts e gostaria de te agradecer!!!

      Sorte a nossa de termos mães que se dispõem a evoluir e a amar incondicionalmente! Nos dá a dimensão do quão temos de ser solidários e apoiar aqueles que não tem a mesma sorte! Amemos nossos amigos e apoiemos todos aqueles que precisarem!

      Um abração,

      Flávio

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  5. E ai flavioo.... li o texto.... quem me dera se fosse assim comigo.... rsrs adorei o blog!!! Bjussss

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    1. Re,

      Obrigado por visitar o blog, fiquei muito feliz!!!

      Um dia vai ser, não perde as esperanças não, acredito que vocês avançaram muito, muito mesmo... mas ainda tem muito chão pra percorrer!

      Não esqueça de que eu te amo, e precisando é só gritar!

      Um beijo.

      Flávio

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  6. Acabo de passar por isso. Contei à minha mãe que sou gay. Na verdade ela que veio me perguntando. Foi uma conversa tranquila, porém notei que ela ficou bastante conturbada. Chorou muito, mas deixou claro que nada mudará entre nós e que me ama acima de tudo, porém precisa de um tempo para assimilar tudo na cabecinha dela.
    Fico com um pouco de medo de pensar no "amanhã", em como será, se algo irá mudar. Porém me sinto muito melhor em ter contato a verdade à pessoa que mais amo na vida.
    Parabéns pelo texto Fávio, muito bem escrito e inspirador. Fique com Deus.

    Hugo

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  7. Minha história bem parecida com a sua. Estou na fase do silêncio e ainda nao tenho a coragem necessária para chamá-la pra conversar.

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