segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

E ser feliz é o que realmente importa!


Um dia desses acompanhei em um fórum na net o relato um adolescente de 16 anos que compartilhava com os membros sua angústia: havia entregue uma carta para sua mãe revelando a sua homossexualidade e naquele momento aguardava a reação dela, bem como do restante da família que provavelmente não reagiria bem.

Cena do filme Oração para Bobby
Acabei puxando pela memória algumas lembranças de como vivenciei este período, algumas coisas até já compartilhei por aqui. Lembro que este período foi um tanto quanto solitário, não tinha com quem dividir as minhas angústias, falar das minhas confusões e das paixonites. Penso que com o advento da internet, hoje exista mais espaço para que as pessoas possam se expressar e existe a real possibilidade de abertura de canais para que as pessoas dêem vazão àquilo que as afligem.

Nas mensagens que se seguiram ao post, muitas pessoas deram apoio e se solidarizaram com a situação do garoto, e houve – sempre há – quem aproveitou a oportunidade para pisar, humilhar e despejar alguns preconceitos sobre uma pessoa que já estava bastante fragilizada e exposta, essas nem merecem consideração.
Entre vários comentários das pessoas que seguiam o fórum algumas coisas me chamaram a atenção: a primeira é que a internet (e os espaços criados por ela) nunca vai substituir as relações humanas, o olho no olho, o calor de um abraço e o som das palavras, porém, é possível encontrar algum alento por ali.
Pelos textos percebia-se que o ato de se assumir por vezes é aterrorizante. A angústia de expor uma parte importante de nossas vidas e o temor das conseqüências deste ato que parece tão simples são assustadoras. Acabam por misturar sentimentos, valores morais, convenções sociais, doutrinas religiosas, entre tantas outras coisas que acabam por trazer uma sensação de inadequação e não pertencimento ao grupo familiar e de amizades.
A segunda coisa que me chamou a atenção foram os inúmeros conselhos sobre a melhor forma de se revelar, de assumir a própria homossexualidade. Já ouvi uma infinidade de conselhos sobre quando e como se assumir. Alguns bastante válidos, como contar para um amigo próximo, um familiar ou alguém de confiança que possa dar espaço para que a pessoa se abra, mas até isso é mais fácil em teoria.
Porém, alguns outros acabavam por fazer com que o fardo de se assumir ficasse cada vez mais pesado, aconselhando o rapaz (e quem mais estivesse na situação) a antes de se assumir conquistar independência financeira, fazer uma faculdade, conseguir um bom trabalho, juntar uma boa grana, mudar de casa e depois contar à família. E aos que ainda não podem sair de casa ficava a recomendação de ser o melhor em tudo, o melhor aluno, o melhor filho, o melhor primo, o melhor funcionário, o melhor amigo, pois essa seria uma forma de “compensar” o fato de ser gay.
Avaliando o que eu passei, o que eu escuto por aí, o que já estudei e o que eu li no fórum, percebo que essa idéia da independência financeira associada a tese de que devemos ser os melhores em tudo é bem mais comum do que se pensa, e em alguns casos parece ser uma reação quase que automática, como se ao não depender financeiramente de ninguém, estivéssemos acima do julgamento de qualquer pessoa, ou deixássemos de depender afetivamente das outras pessoas também. Ou como se o fato de eu ser o melhor aluno, manter meu quarto organizado, ir ao mercado com minha mãe e lavar a louça do jantar compensasse o fato de não ser o que esperavam que eu fosse.
Pura balela! Não tem dinheiro, produção acadêmica, eficiência profissional que compense afeto, aliás, não há nada para ser compensado. Ao nos revelarmos, o fazemos por que queremos ser amados como somos, e não por aquilo que temos, fazemos ou podemos vir a ter. O fazemos por que levar uma vida dupla é insuportável, por que se negar e não se aceitar é tão doloroso, quanto o medo de perder o amor e o respeito das pessoas que amamos.
E por fim, no meio das postagens surgiram as eternas perguntas: como se assumir? Como contar a nossos pais sobre nossa sexualidade? E para as pessoas próximas? E o que fazer quando isso acontecer? Como vai ser depois de contar?
Sinceramente não sei, e não creio que existam respostas e receitas certas para se assumir. Mas tenho a certeza que é importante falar sobre o assunto.
Hoje, penso que para compartilhar esta parte tão importante com a família e com os amigos, a primeira coisa a se fazer é estar bem consigo mesmo.
Isso mesmo, ao me revelar e exigir respeito das pessoas devo em primeiro lugar me aceitar e me respeitar, estar bem com isso. Aceitar que a minha orientação sexual é uma variação natural da sexualidade humana, e que mesmo que alguns preconceituosos digam, não sou nenhum anormal, abominação ou aberração.
Passagem para Nárnia
Note-se que eu digo me respeitar e não se dar ao respeito, como dizem por aí. Na linguagem moralista, “se dar ao respeito” é se anular, se esconder, se portar como se a nossa sexualidade (homo, bi, trans, ou qualquer outra possível) não existisse, ou ficasse restrita ao maravilhoso mundo de Nárnia, bem guardada dentro do armário.
Depois de estar seguro e feliz com o que se é, penso que a melhor coisa a se fazer é conversar, conversar e conversar sempre!
Estar aberto para responder as perguntas que surgirão, lidar com as dúvidas, com as frustrações, com as cobranças e em alguns casos com as limitações que decorrerão daí.
Cena de Glee
Enfim, acredito que se assumir não se limita a contar a alguém. Se assumir tem a ver com se aceitar e gostar se si próprio como realmente se é. É um processo de autoconhecimento que se faz diariamente, é tomada consciência de si próprio, de reconhecer que somos e podemos ser falhos, mas que nossa sexualidade não tem relação nenhuma com isso. Se assumir é dar novos sentidos aos nossos valores e sentimentos, é compreender a maneira como amamos e como lidamos com nossos afetos. Se assumir é um ato de coragem que demonstra cuidado com a nossa própria existência e uma grande disposição para ser feliz. E ser feliz é o que realmente importa!







PS: Por gentileza assinem petição contra a PEC 99 que quer dar poderes a instituições religiosas cristãs de propor ações diretas de constitucionalidade e inconstitucionalidade ao STF e defende a laicidade do Estado: CLIQUE AQUI


 

5 comentários:

  1. Texto maravilhoso, e é exatamente da forma que eu penso. Quando contei a minha mãe que sou gay, fiquei com medo de magoá-la, o resto das pessoas não me importavam muito. Era muito dolorido viver uma vida dupla, ser gay e ao mesmo tempo o menino certinho da igreja. No começo foi doloroso conviver com o fato de ser antes ser o exemplo da família e na sequencia ser o monstro que tinha que manter distância dos primos pra não escandalizar ninguém. Mas eu estava feliz, vivia um momento feliz, pela primeira vez eu era eu, sem ter que me esconder atrás de nada, nem de ninguém e tomei isso por base pra cada novo passo, a minha felicidade.

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  2. Lindo texto, querido. Que 2012 seja um ano de aprofundamento em nossa busca por nós mesmos, por nossa completude e realização. (E, pegando o gancho da sua história e por falar em realização, talvez você goste deste texto aqui.)

    Você nos permitiria reproduzir seu texto em nosso blog?

    Beijos.

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  3. Parabéns pelo texto, ele serve para qualquer tomada de decisão na vida.
    Abraços,
    Marcello Lopes.

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  4. Flaávio!
    O que dizer? fantástico como sempre!
    Muitos adolescentes deveriam ver este texto, aliás vou compartilhar, ok?!beijo

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  5. Infelizmente isso é nada mais do que o vazio que só Deus pode preencher em nós.

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