quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um beijo pra quem é travesti!




Recentemente recebi uma imagem que circulava na rede separando os gays em "bichinhas e homossexuais" (é esta imagem que abre o post), abaixo da imagem li inúmeros comentários e revi algumas coisas que sempre me chamaram a atenção: a primeira, a necessidade de se enquadrar e limitar as coisas ou os comportamentos; e a segunda, reflexo da primeira, é a forma como as pessoas falam de si mesmas quando se referem à sua orientação sexual.
Quem nunca ouviu uma pessoa dizendo que é gay, mas é supernormal, não é efeminado, não tem trejeitos de gays, é super discreto, é tão normal nem sequer parece ser gay? Indo mais além, quem nunca ouviu algumas pessoas dizendo que não são e não gostam de efeminados, dos viadinhos, das pintosas, de gente que fala fino demais ou que tem trejeitos, de pessoas espalhafatosas que chamam a atenção pra si?
Já fiz muito isso, até já contei por aqui que apontava meu dedinho para tudo quanto é lado e distribuía muitos julgamentos.
Vanessa, travesti de Ji=Paraná
Não sei o que passava na minha cabeça, aliás, sei sim! Eu acreditava que ser LGBT e ser digno era duas coisas que se opunham de tal forma que era impossível viver dignamente não sendo heterossexual.
Não parecer LGBT, era mais que um mecanismo de defesa, era uma qualidade e uma condição fundamental para que eu fosse respeitado. Qualidade esta que devia ser preservada, reforçada e exaltada.
Vivia me policiando para não ter nenhum tipo de comportamento que pudesse ser identificado como gay, que desse a entender que eu era diferente, que evidenciasse minha verdadeira orientação. O futebol sempre me entregou!
Como não consegui negar o que sou, durante um tempo me tornei no dizer de uma amiga, um gay de respeito. No entender dela, um gay de respeito é um gay que se nega, que socialmente se passa por aquilo que não é, que nega sua sexualidade, seus desejos, enfim, um gay que fica com meio corpo fora do armário, e na primeira complicação volta correndo para dentro dele. E hoje, observando a maneira como as pessoas se descrevem, vejo que não era só eu que pensava desta maneira... Muita gente pensa assim!
Há uma cultura da invisibilidade, uma apologia a negação de si próprio, uma recomendação sutil de que devemos levar uma vida “contida”, isto é, sejamos gays e lésbicas, mas vivamos sob uma roupagem heteronormativa, nos tornemos palatáveis para turma da moral e dos bons costumes, sem chocar ou levantar bandeiras.
E olhando para essas pessoas que vivem angustiadas e presas em convenções sociais é que cresce meu respeito e minha admiração pelas travestis e pel@s transexuais.
Não tenho dúvidas de que são as travestis e transexuais as mais agredidas, as mais atacadas e as mais incompreendidas. São as que mais têm direitos negados, as que mais são discriminadas. Inclusive pela população LGBT.
Camille Gerin, Vítima de Homofobia
São as travestis que mais encontram dificuldades de ingresso no mercado de trabalho, de acesso aos serviços públicos. Sofrem com a falta de atendimento e tratamento adequado, com a carência de políticas públicas que atendam suas especificidades. São elas que são as mais apontadas na rua, na escola, alijadas do meio familiar, invisíveis para o poder público. Sob elas ainda pesa o estigma da marginalidade. E a elas muitas vezes, é negado um dos direitos mais fundamentais do ser humano: o direito a um nome!
Durante muito tempo travestilidade e transexualidade, para mim, eram sinônimos de sujeira, imoralidade e prostituição. Por anos acreditei no estereótipo de travesti que me passaram: barraqueiras, agressivas, desbocadas e ainda usavam gilete no dente. Figuras ameaçadoras, que resolviam tudo na base do tapa.
Me incomodava estar num mesmo ambiente ou lhes dirigir a palavra. Pensava que se existia um grupo que devia ser discriminado, este era o das travestis, já que elas faziam por merecer. A regra da discrição servia para tod@s e se tem um segmento que chuta para longe essa regra são as travestis. Mereciam as pedradas e as dificuldades que a vida lhes impunha por “não saberem se comportar decentemente”Sinceramente ainda tenho certa dificuldade de compreendê-las, mas passei a olhá-las de outra forma.
Luiza Marilac, tema do 1º.
Post do Canhotas
Todas as travestis que conheci são pessoas imponentes, valentes, combativas e assertivas, mesmo as que não são militantes. Tem consciência da discriminação que sofrem, dos preconceitos, das agressões a que estão sujeitas, e de que a vida não é fácil! Reagem a isso, nem sempre da melhor maneira, mas  enfrentam tudo de cabeça erguida, argumentam e dão combate.
Com o tempo percebi que o que me incomodava nas travestis não era a falta de discrição e sim o fato de que as travestis me tiravam do meu lugar confortável de gay respeitável. Eram elas a expressão mais clara de que era possível viver como se quer, não importando o tamanho das dificuldades, dos perrengues ou do que os outros iriam pensar.
Elas atestavam a minha covardia, a minha falta de coragem e os meus preconceitos. Uma demonstração clara de que eu ainda tinha muitas amarras para soltar e correntes para me livrar.
Aí num exercício de humanidade levei meu olhar para além do que meus olhos estavam acostumados a enxergar, para além do que meus preconceitos me diziam e vi nas travestis e transexuais pessoas tão frágeis como todo e qualquer ser humano, cheias de sonhos, planos, vontades e, acima de tudo, cheias de coragem pra enfrentar os desafios cotidianos. Mas o melhor foi percebê-las cheias de vida, de alegria, de graça e delicadeza, mesmo com todas as dificuldades que a vida lhes impõe!
São humanas, capazes de grandes gestos de solidariedade, de demonstração de carinho e cuidado com o próximo, e por incrível que pareça, tem gente que insiste em ignorá-las, como se fosse possível!
Admiro as travestis e @s transexuais, pois além de me tirarem da minha zona de conforto, elas transgridem e transcendem qualquer rótulo que a sociedade, os acadêmicos, o poder público, ou quem quer que seja, tentem lhes impor. Estão acima de definições, são complexas, intensas, únicas e vivas demais para se sujeitaram a ficar presas nas molduras que tentam lhes colocar!
Vivem a me surpreender e ter a oportunidade de conviver com elas é receber uma lição nova a cada dia. Lição de vida, de solidariedade, de luta! 
A elas a minha admiração e o meu profundo respeito. E um beijo para quem tem a coragem de ser travesti!









PS: Por gentileza assinem petição contra a PEC 99 que quer dar poderes a instituições religiosas cristãs de propor ações diretas de constitucionalidade e inconstitucionalidade ao STF e defende a laicidade do Estado: CLIQUE AQUI 






* Post escrito para registrar a passagem do Dia Nacional da Visibilidade Trans, dia 29 de janeiro, e que toma parte da   Blogagem Coletiva do Dia da Visibilidade Trans das Blogueiras Feministas.

15 comentários:

  1. Lindooooooo! Super apoiado!!! Fico sem palavras diante da eloquência do teu texto.

    Beijo para as travestis, as transexuais, as afetadas, as purpurinadas, as que desafiam o status quo machista que agride o feminino, o andrógino e angustia os machos que gostariam de ter força para não sucumbir à estupidez machista.

    Beijo pra ti também, lindo!
    Sergio Viula

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  2. muito bonito seu texto. passarei pra frente.

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  3. Eu tinha tanta coisa a dizer sobre isso, mas acho que vc falou tudo. É essa zona de conforto q a gente tem e q as bichinhas, as machonas, as travas, incomodam tanto. Acho que pq, no fundo, a gente sabe que essa aceitação do gay de respeito é bem rasinha.
    Não aceitam não. Não respeitam não. A gente meio que se engana achando que ganhamos esse respeito, mas no fundo a gente só é tolerado. E aí quando a gente vê uma travesti a gente se encolhe de medo pq elas lembram aos outros que a gente tabm é gay. Uma coisa que a gente se esforçou pra eles esquecerem.
    No fundo a cabecinha da gente é bem pequena né?

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  4. Ola, obrigada por essa leitura, ela cai bme nas vespereas do dia 29 de janeiro, dia da Visibilidade Travesti, obrigada!!!

    Janaina Lima -

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  5. Excelente texto e ótima colocação. Amei!!
    Parabéns Flávio!!!!

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  6. Não poderia deixar de contar pra vocês o que contei pro Flávio, após a leitura desse texto, antes dele ser publicado.

    Quando eu era mais novo, eu achava que todo gay necessariamente era travesti e isso me causava desconforto porque eu não queria gostar de meninos e ter que me vestir de mulher. Morria de medo de apanhar do meu pai por isso, ele já abominava o uso de brincos por homens, quem dirá montar-se. rs
    Cresci e entendi que homens também gostam de homens e não precisam vestir-se como mulher pra isso. Mas a religião, os valores familiares, dentre outras coisas, me faziam acreditar que eu não devia gostar de pessoas do mesmo sexo e que travestis eram "monstros".
    Guararema é uma cidade pequena, então tinhamos os travestis da cidade, que são conhecidos por todos. Morria de nojo deles. Sim, eu disse nojo, era exatamente o que eu sentia. Meu pai teve um bar, e eu me recusava a atender qualquer uma dessas pessoas. Como eu era ridiculo.
    Comecei a dar aulas de informática pra prefeitura. Um dia estava na minha sala recebendo uma nova turma, fiz a chamada, uma pessoa apenas faltou, comecei a minha aula com uma dinâmica, após uns 5 minutos batem na porta. Abri, e dei de cara com um negão de 1,80m, num salto 15cm e um sorriso no rosto. Primeiro me assustei, depois perguntei no que poderia ajudar. A pessoa disse que veio para a aula, permiti a entrada, mas disse que o nome não constava na lista. A única pessoa que faltava era um senhor chamado Valdinei. Ela riu, e se apresentou: "oi, sou Elizeth, esse ai é o nome do meu RG, mas me chama de Elizeth!" (com TH por causa da sonoridade, rs). Fiquei apreensivo, mas a recebi educadamente. Continuei minha dinâmica quebra-gelo e fui conhecendo ela aos poucos, que sempre estava com um sorriso no rosto.
    Apesar do curso ser de pouca duração, pude aprender mais com a Elizeth, do que ela comigo. Tive que baixar a guarda, e aprender a valorizar as pessoas, a respeitá-las e jamais criar pré-julgamentos. Ela foi a melhor aluna, não faltava, nos exercícios e provas só tirava nota máxima, era a mais esforçada, a mais simpática, a mais educada (em uma turma formada só por mulheres) e SEMPRE estava com um sorriso no rosto.
    Acabei conhecendo a pessoa Elizeth, um pouco de sua história, de sua luta, de suas frustrações, e isso só me fazia não entender aquele sorriso no rosto. E as vezes continuo sem entender. Porém, a melhor arma contra qualquer um dos males é o sorriso!
    Depois 4 meses de relação aluno-professor, criei um vinculo de amizade com ela e automaticamente minha visão mudou sobre travestis, transsexuais, sobre mim, sobre meus amigos afetados, sobre várias coisas. Por que a maneira como me visto, me comporto, falo é tão incômoda? Bem, não é pra ser. Só sou feliz da maneira que me parece melhor. E as outras pessoas também. Essa foi uma das lições mais importantes que aprendi, e precisei apanhar um pouquinho pra aprender.

    Vou parar por aqui, porque meu comentário virou uma monografia, kkkkkk
    Parabéns Flávio, por mais esse texto.

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  7. Discordo de muitas coisas. Eu por exemplo gosto, e gosto somente de gays que parecem homens, e muitos pensam como eu.

    Não julgue os homossexuais que tentam parecer heterossexuais. Eles o fazem porque sabem que há gente que gosta.

    Além disso, sou super comportado, não dou pinta, e ao mesmo tempo sou 100% assumido, não estou meio dentro do armário e meio fora.

    Abraços.

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    1. Concordo com vc Thiago na maior parte de sua fala.
      Sou assim como vc, e entendo que cada um (pelo menos deveria) ser do jeito que deseja. Não me sinto bem usando roupas e trejeitos masculinos (sou mulher que gosta de mulheres). Isso é um "preconceito" dentro de nosso próprio grupo.
      Respeito quem homem efeminado e mulher masculinizada, mas falar que todos não são assim ficam escondidos no armário não tem nada a ver.
      Só não acredito que quem parece heterossexual o é para tentar atrair outros homossexuais. São assim pq se sentem bem assim.
      Bjs!

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  8. http://oquevcfazcomasualingua.blogspot.com/2011/07/o-problema-e-do-feminino.html

    http://oquevcfazcomasualingua.blogspot.com/2011/10/como-reconhecer-verdadeira-identidade.html

    Olha q bacana!

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  9. Eu adorei o texto!

    Odeio essa diferença entre viado e gay, homossexual e bicha, detesto. Uma forma de discriminação horrível no meio LGBT e fora dele que deve ser combatido por todos. Chega de nos dividir mais do que já estamos, chega de fingir e querer caber a todo custo no padrão estreito e limitado da heteronormatividade.

    Chega dessa autoafirmação ridicula de se dizer discreto e fazer questao de deixar isso claro como sendo o melhor, o que pode mais que outros, o machão. O que consegui ser assim porque algumas pessoas gostam e nem tanto pelo que ele sente, pois se realmente sentisse não necessitaria reafirmar isso ao mundo sempre que pode.

    Travestis, transexuais e transgêneros: Vamos olhá-las de outro angulo, de preferência o mesmo que vemos todos os outras pessoas.

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  10. Nossa fiquei emocionada com o seu texto...parabéns!

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  11. amei o texto. copieiiii ele ok?
    http://leonardodelrey.blogspot.com/2012/02/um-beijo-pras-trans.html
    bej

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    1. Oi Leonardo,

      Obrigado pela visita. Pode reproduzir o que é quando quiser, é só dar o cr´dito!

      Um abraço e volte sempre,

      Flávio

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  12. Um texto maravilhoso. Sei como é o preconceito, pois moro em uma cidade pequena, tenho alguns trejeitos(poucos, mas tenho), sofri por anos com o bullying na escola, vejo pessoas que me olham torto quando passo na rua. Mas quer saber? Literalmente meu FODA-SE pra eles.
    Parabenizo todas as travestis por assumirem de maneira tão bonita quem elas realmente são. Nunca tive relações com travestis por que simplesmente o feminino não me atrai (e não há nenhuma travesti aqui). Mas de qualquer forma, amei!

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    Respostas
    1. Oie,

      Novamente obrigado pela visita.

      Olha só, penso que você deve se preocupar com o que você pensa de você mesmo... se as pessoas te olham torto, problemas delas que estão perdendo a oportunidade de conviver com uma pessoa boa e sensível como você!

      Um abraço,

      Flávio

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