terça-feira, 9 de agosto de 2011

Um funeral para Gilvan

Cena de Insensato Coração, Globo (2011)


Muito antes da estréia de Insensato Coração, noticiou-se que a novela teria vários personagens gays, e que a trama retrataria um pouco da vida e dos mais variados conflitos que as LGBT’s brasileiras vivenciam diariamente.
Dizia-se que tais situações serviriam para a tomada de consciência de alguns personagens, a aceitação de outros, chegou-se a acreditar em certo engajamento do folhetim na defesa dos direitos das LGBT’s, em especial ao direito a vida.
            E de repente a cúpula da Globo, sob o argumento de que a “tradicional família brasileira” não recebia bem homossexuais no horário nobre, descaracterizou boa parte dos personagens.
Sob a orientação de pegar leve na história e manter o “padrão Globo de qualidade” (no qual nós, LGBT's, não nos enquadramos desde que a Globo é a Globo), o que se viu foi um retrocesso sem limites.
Os personagens gays que vinham retratando os conflitos pelos quais boa parte dos homossexuais passam como auto-aceitação, as situações e manifestações de preconceito, a relação com a família, e o desenrolar de uma relação homoafetiva bem sucedida simplesmente foram neutralizados.
Nesse recuo as cenas de conteúdo homofóbico permaneceram...
O grupo de homofóbicos que agridem gays continuou a existir, o jornalista que tem nojo de gays e lésbicas continuou mostrando o seu desconforto para quem quisesse ver, personagens foram vítimas de agressões causadas pelo ódio as LGBTs, sendo que para um deles, o Gilvan, a agressão foi fatal.
E nessa fase da história, me chamou a atenção o fato de Gilvan não ter tido um funeral.
A morte do personagem foi um ato de extrema violência, ocorrida em um dos bairros mais famosos do mundo. De passagem uma personagem informou que seu corpo foi entregue ao pai para ser sepultado em outra cidade.
A Globo e a tradicional família brasileira se encarregaram de desaparecer com o cadáver e sepultar junto com ele qualquer possibilidade de demonstração de dor e revolta pelo seu assassinato, dentro da novela e fora dela.
Creio que a emissora temia que ao recriar o enterro de um gay assassinado por homofobia teria de recriar também protestos em favor da criminalização da homofobia e refletir a indignação que esse tipo de crime causa em parcela significativa da sociedade. Ou seja, a novela passaria a levantar uma bandeira.
E é aí que vem o meu incomodo, se o folhetim não podia levantar bandeira pela criminalização da homofobia fica a pergunta: Para que Gilvan morreu?
A morte de Gilvan virou uma historinha de detetives adolescentes, virou pretexto para que o conflito amoroso de outro casal pudesse ser resolvido ao final da novela: o assassino será preso e a pobre mocinha poderá viver linda e feliz ao lado do seu amado.
Não sei se é mais torpe a forma como o personagem morreu ou o motivo pelo qual sua saída da trama se justifica.
Gilvan por ser gay e pobre não foi tratado decentemente nem depois de sua morte. Recebeu o mesmo tratamento que é dado aos outros inúmeros crimes de ódio que vem num crescente país afora, ou seja, foram devidamente ignorados, como se não acontecessem.
Não teve um funeral, não foi permitido que aqueles que conviveram com ele pudessem chorar seu passamento, não foi permitido que aqueles que se revoltam com cada ato homofóbico neste país e que defendem os Direitos Humanos pudessem se manifestar no folhetim.
Alexandre Ivo, morto em 21/06/2010.
Desculpem-me se em alguns momentos escrevo como se a história fosse verídica. Escrevo assim, pois sei o impacto que as telenovelas tem junto ao público brasileiro, além do que não é difícil relacioná-la com os casos de homofobia vistos por aí.
E me indigna a forma como a Globo e outros meios de comunicações sistematicamente nos atacam, nos marginalizam, nos negam direito e nos tratam como cidadãos de segunda classe, e ainda abrem espaço para homofóbicos de renome.
Ao não permitir que a revolta por assassinato tão brutal e que tem acontecido com bastante freqüência no Brasil, a TV Globo reafirmou sua falta de compromisso com os Direitos Humanos e seu desprezo pelas lutas e pela história do movimento LGBT.
E isso me revolta, me indigna. E me indigna mais ainda a forma resignada como a maioria das pessoas aceitaram tranquilamente o desfecho da história.
Pretendia escrever aqui mais algumas linhas, mas encerro com a reflexão de Helena Greco: “A nossa cidadania depende diretamente da nossa capacidade de indignação. Esta, por sua vez, só se concretiza a partir do exercício permanente da perplexidade”.
Estou perplexo, indignado e ávido por cidadania!


_____



Segue o link de um texto sobre a novela Insensato Coração escrito pela Família de Alexandre Ivo recomendação do Homorrealidade.

Leia mais sobre a democratização da TV: O ESPAÇO NÃO PODE SER SÓ DE QUEM DIVULGA PRECONCEITOS no blog da Lola


8 comentários:

  1. Ótimo blog meu querido! Posts Fantásticos!

    Acredito que está sendo muito bom poder ter tal assunto abordado nas novelas, porém concondo com você de que a globo está nos tratando como cidadãos de segunda classe.

    "Globo: Direitos Humanos, a gente NÃO ver por aqui."

    Grande Abraço!

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  2. Concordo que o Gilvan precisava de um funeral para mostrar esse lado da dor, da revolta, mas, por outro lado, a novela bateu recorde de mortes e praticamente não teve funeral de ninguém.

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  3. Parabéns pelo texto! Como vc mesmo diz no texto "A morte de Gilvan virou [...] pretexto para que o conflito amoroso de outro casal pudesse ser resolvido ao final da novela.", portanto a personagem do Gilvan e sua morte de forma brutal serviu apenas como "escada" para a resolução de um romance na trama.

    Confesso não ser assíduo telespectador de novelas globais e tenho particular resistência àquelas que retratam relacionamentos ou personagens "gays". Essa resistência se deu pela coleção de personagens com fins trágicos ou extremamente apáticos que a emissora já apresentou e também de tantos outros que a emissora apresenta em seus programas humorísticos que no meu modo de pensar servem apenas para perpetuar estereótipos de LGBTs e fazer rir uma platéia pouco crítica e de riso fácil. São muitos os casos em que o final das personagens “gays” em tramas globais ou terminam de forma trágica como a morte de casal lésbico em um incêndio ou criam “casais gays de plástico” que não demonstram afeto e que parecem mais amigos ou amigas do que realmente um casal.

    Para mim, não era de se esperar outro fim para o Gilvan, pois, o “padrão” Globo de qualidade (oi?) em relação às personagens “gays” ou termina em tragédia ou se apresentam com extrema apatia e qualquer coisa que o autor da trama faça fora desse “padrão “ será logo censurado pela emissora.
    Personagens “ gays” na Globo são apenas para arrancar riso fácil de uma plateia acrítica. No intuito de fazer rir o “padrão” Globo pode até ressuscitar a “figura” de um gay com homofobia internalizada para criar um personagem, criar um lobisomem gay ou um pai que repete o bordão “Onde foi que eu errei?” para seu filho gay ou frases do tipo “Isso é uma bichona”.

    Um dos últimos exemplos do que passa pelo “padrão” global de qualidade (oi?) foi o seriado Macho Man que apresentava um personagem ex-gay vivido por Jorge Fernando. A própria história da personagem título da série sugere a homossexualidade como opção ou que pode ser “revertida” após uma pancada na cabeça. Em suma, em relação às personagens “gays” em tramas globais existem muitos que ainda permanecem insepultos e outros que habitam os programas humorísticos que precisamos e podemos “sepultar” usando apenas um dedo para mudar de canal ou desligar a televisão.

    Grande abraço.

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  4. Olá,

    Olha eu aqui novamente!

    Primeiro quero dizer que foi incrível como quase pude ver você escrevendo este texto em meio a um turbilhão de emoções que acredito ter sentindo!!e realmente...você tem motivos para estar indignado!!
    Não pelo Gilvan,mas por todas as outras histórias e desfechos trágicos que temos desde que o mundo é mundo!

    Eu não acompanho novelas, mas entendo o forte papel social que ela exerce nas famílias brasileiras, contudo, acompanhei na mídia o caso e pra dizer a verdade não esperava outro desfecho senão o que se deu.
    É triste saber que este tipo de coisa acontece o tempo todo com milhares de pessoas ,desde violências sutis à violências fatais!elas passam por baixo do nosso nariz e simplesmente fechamos os olhos e nos calamos diante da realidade que insiste em aparecer!
    O que ensinamos a nossos filhos? o que exigimos do poder público? ao que damos ibope na mídia? Nós somos responsáveis pelo que acontece!e nossa omissão frente ao preconceito e violência só reforça toda a resistência que existe contra as minorias!

    Ah! e adorei a frase do "anônimo"

    "Globo: Direitos Humanos, a gente NÃO ver por aqui."

    Direitos Humanos!?um dia ainda descubro o que isto quer dizer...porque sinceramente para mim é só um conceito vazio usado para mascarar uma luta que não sai dos papéis!

    Boa sorte na luta e sinta-se acompanhado na indignação.

    Luana Peres

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  5. Quero parabenizar pelo ótimo texto, que vai no mesmo sentido que fizemos no nosso Blog - ALEXANDREVIVO.BLOGSPOT.BR
    Aqui registramos mais uma voz que junto a sua, denúncia as distorções ficcionais frente a realidade dos assassinatos homofóbios no Brasil.
    Abraços Fraternos
    ALEXANDRE (V)IVO

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  6. Mais uma ves, Flávio, seu texto contundente não deixa margens a dúvidas ou a contradições. Os personagens gays em novela só têm a "aceitação" pública a ponto de serem sucesso se forem caricatos, engraçados. Profundidade no tema da homossexualidade em novela é sempre isto: o público aceita, desde que "não se beijem, não falem do amor recíproco, não tentem mudar o mundo porque ele é assim mesmo."
    Perdemos uma ótima oportunidade de colocar temas importantes na mesa de jantar das pessoas. A "operação abafa" da Globo na trama do casal gay é a prova de que não basta um autor ter boas ideias e personagens se não há vontade por parte da emissora de ir até o fim com o processo de mudança nas mentalidades. Se família, escola, trabalho e igrejas não fazem isso, por que uma emissora de TV, que depende de ibope, o faria, não é mesmo?!
    Grande abraço, amigo.
    Rogério Bernardes

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  7. Mais uma veZ, no comentário anterior. Como a Lara e os beijos da @Suzana_40, é com Z. Erro grosseiro detectado. Rs

    Sim, criei meu blog. Sim, o seu já está listado lá como favorito. Não, não chego aos seus pés na hora de escrever, mas a proposta é diferente, então está valendo, né?!

    Abraços, amigo.
    Rogério Bernardes

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  8. A vá que vc tem blog e eu não tva sabendo!!!

    Esse nosso mundo distante esta nos pregando surpresas!!!

    Beijos meu amigo.

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